quarta-feira, 26 de maio de 2010

Conferência Paulo Moura - Reportagem de Acção

Aqui deixo umas das melhores reportagens de Paulo Moura assim como alguns tópicos de Paulo Moura na Conferência do passado dia 25.05.2010 no Pólo Ciências da Comunicação: Jornalismo, Assessoria e Multimédia, Porto.

Os macedónios desconfiam dos albaneses




Tensão na Macedónia
Em Skopje, depois da chuva
Por Paulo Moura
24.03.2001
Está calor, a chuva veio com a noite, e Dejan tenta falar mais alto do que a trovoada. “Neste momento só desejo que isto acabe depressa, que todos os etrangeiros regressem aos seus países, para eu voltar a ter paz.”Dejan Pavlovic refere-se ao Festival Internacional de Cinemade Skopje, que está a decorrer na capital macedónia e de que é o director.

Começou há uma semana, com pelo menos cinco filmes por dia, originários da Europa, EUA, Japão, Irão e de vários países balcânicos vizinhos, e terminará em grande no próximo domingo, com a exibição da obra considerada mais emblemática da cinematografia macedónia, “Depois da Chuva”, de Milo Manuevski.

Os ataques dos guerrilheiros albaneses no Norte da Macedónia, que se teme serem o rastilho de uma nova guerra nos Balcãs, começaram durante os primeiros dias do festival.

Dejan pensou que seria o fim do certame. Quem teria disposição para ir ao cinema com a guerra já a 15 quilómetros de casa? Com os albaneses do UÇK-M (Exército de Libertação Nacional) a anunciar a ocupação de parcelas de território macedónio, com o Governo a recrutar reservistas para combater, quem sairia de casa para ir ver alambicados filmes croatas ou israelitas?, pensou Dejan. Enganou-se. O festival registou o maior êxito de sempre. A sala de quase 700 lugares do teatro de Skopje esgotou em todas as sessões. “As pessoas vieram para estar umas com as outras, para se sentirem seguras.” Todos os dias, entre as “matinées” e as “soirées”, há um debate com realizadores, actores e críticos de cinema, aberto ao público. A sala esteve sempre cheia e os debates decorreram animados sobre variados temas. Cinema e muitas outras coisas que vinham à baila, mas nunca se falou da guerra.

“Notase que as pessoas estão muito nervosas. Levantam a voz, exaltam-se por tudo e por nada, nas discussões. Mas o assunto nunca foram os tiros e as bombas, nem os cabrões dos guerrilheiros, nem o problema com os albaneses”, observa Dejan, com naturalidade.

“Do outro lado do rio é outra cidade”

O grande “hall” do teatro de Skopje está cheio de gente. Jovens, na sua maioria, conversando, fumando, lendo os programas. Haverá aqui albaneses? Pelo menos 30 por cento da população do país é de etnia albanesa. Em Skopje, a percentagem é sensivelmente a mesma. Este é o festival de cinema da cidade... “Talvez haja alguns albaneses”, admite Tatjana, crítica de cinema num jornal de Skopje. “Não os reconhecemos assim pelo aspecto físico. Mas devem ser raros.” Na organização do festival, decerto não há nenhum. Há realizadores de cinema albaneses? “Não”. Críticos? “Não.” Escritores, músicos, pintores? “Que eu conheça, não. Bom, eles terão os seus próprios artistas, que terão o seu próprio público.” Como é possível, numa mesma cidade, tão pequena?

Dejan tem uma namorada, em Skopje, que nunca falou com um albanês. “Mas odeia-os!”, garante ele, para dar uma ideia da impenetrabilidade do fenómeno. “Nós contactamos com eles, nas lojas ou nos serviços onde trabalham, mas é muito raro termos amigos albaneses. Vivemos separados. Do outro lado do rio, é outra cidade.”

À mesa de um café em frente ao teatro, um grupo de macedónios eslavos e alguns amigos estrangeiros tentam explicar-nos o que sentem pelos albaneses. “São diferentes de nós, é tudo. Deixamo-los em paz, queremos que nos deixem a nós”, diz Dejan. “Têm gente no Governo, têm a merda de uma universidade, que querem mais?” Diz um jornalista de Belgrado que se sente em casa em Skopje: “São arrogantes, violentos e sujos, mas acima de tudo são chatos.” Diz um irlandês que veio reencontrar velhos amigos, depois de ter passados seis anos nos Balcãs a realizar um filme chamado “Adeus, até à próxima guerra”: “O problema deles, depois de terem sido ajudados pelo Ocidente, é que pensam ser iluminados.”

“Estamos todos muito ofendidos com o Ocidente, mas este é o grande teste”, explica Dejan. “Queremos ver o que vão fazer. Se vão ajudar um país que está a ser atacado por guerrilheiros extremistas, ou os próprios ex-tremistas. O nosso problema é que criámos uma crise de identidade. Repare: quando eu andava na primária, disseram-me que isto era a Jugoslávia. No secundário, declararam que a Macedónia era dos macedónios. Agora que acabei os estudos, dizem que isto deve ser a União Europeia, ou que esta terra não é nossa. É difícil para nós sabermos o que está certo e o que está errado.”

Lá fora, a tempestade torna-se realmente violenta, fazendo a discussão ainda mais ilógica. As pessoas estremecem a cada trovão, num inconsciente ensaio de emoções. “De certa forma, sempre estivemos à espera da guerra”, reconhece Dejan. “Todos as outras repú-blicas da ex-Jugoslávia tiveram uma guerra. Diziam que a Macedónia era um oásis, mas também sempre disseram que haveria de chegar a nossa vez. No fundo, sabíamos que isto acabaria por acontecer.”

De certa forma, a Macedónia está em guerra desde a dissolução da Jugoslávia. Uma guerra surda, adiada, mas presente. É como se em cada olhar trocado, nas ruas de Skopje, entre um eslavo e um albanês, corresse num segundo o filme dos futuros massacres. Foram dez anos de convívio próximo com o inimigo, à espera do momento da confrontação. Cumprimentando-os, numa atitude de respeito, quase de estima, como quem guarda ciosamente no bolso uma pílula de cianeto.

A guerra estava a toda a volta e o segredo aqui era não falar dela. Quanto mais próxima, mais proibida. Há dois anos, foi no Kosovo, a escassas dezenas de quilómetros. Na fronteira, ouvia-se os tiros, via-se o fogo, as lágrimas dos refugiados. Agora é em Tetovo, em aldeias a 15 qui-lómetros de Skopje. É como uma pestilência que se aproxima, inexoravelmente. Mas os espectadores do festival de cinema continuam a debater todos os assuntos menos a guerra.

“Só quando as bombas começarem a cair nas nossas cabeças assumiremos que começou”, diz Dejan. Até lá esperam. E tal é a hipnose da expectativa, que quase desejam a guerra. Dejan reconhece-o: “Há quem esteja impaciente por que os combates comecem. Já que não há outra solução, mais vale resolver as coisas rapidamente.” Como se fosse necessária a tempestade para o país poder amanhecer sob uma luz diferente. Dejan já só espera que o seu festival possa chegar ao fim, amanhã. Para que a lotação completa da sala do teatro de Skopje possa aplaudir mais uma vez o filme de Milo Manuevski. Como fez unanimemente na estreia, em 1994.

“Depois da Chuva” é uma história de amor. Ele é um monge em voto de silêncio e ela uma adolescente que se refugia na sua cela. Ele não compreende a sua língua, mas vê que ela é perseguida e protege-a. Não podem falar. Ele é macedónio eslavo, ela é albanesa.



Conferência de Paulo Moura 25.05.2010

Na escrita os jornalistas "roubam” recursos ou técnicas aos escritores, à literatura para fazer a reportagem.
Técnicas:
-reproduzir diálogos
-Jogar com o tempo, analepse e prolepse
-usar personagens e caracterizá-las física e psicologicamente
-descrever cenários
-manipular personagens para o suspance, para suscitar o interesse

Como fazer:
1- Ter uma história
2- Ter um agente que age (nem sempre são as personagens principais)
3- Ter uma estrutura
4- Construir o texto de forma a ter suspance, boa estruturação

As pessoas lêem muito pouco, por isso, a reportagem tem de ser interessante e há que fazer uma estrutura revelando pouco a pouco o conteúdo, para despertar a curiosidade no leitor
Desenlace: contar a história como se ela tivesse um final.
História vs Intriga: história é a realidade, a intriga refere-se à realidade seleccionando alguns pormenores.
Desafio: “Encontrar a história quando aparentemente ela não está lá”.
A escrita é a construção de cenas ex: O segredo do Padre António “Eu sinto Cristo no coração” Paulo Moura entretém o leitor para revelar na última linha o segredo do Padre António.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Palavras de Fábio Wanderley Reis - Valor Econômico

Tive a satisfação de participar, na semana passada, de mesa redonda sobre "Imprensa, Estado e Crise de Representatividade", promovida pelo Centro Brasileiro de Estudos da América Latina do Memorial da América Latina e integrando seminário dedicado a "Liberdade de Imprensa e Democracia na América Latina".
O tema pode ser dividido, a meu ver, em duas dimensões entrelaçadas. A primeira é a questão crucial da liberdade de imprensa como valor, a que remete o título geral do seminário e que tem sido motivo de renovados debates no continente e especificamente no Brasil, onde iniciativas governamentais visando a algum tipo de controle da imprensa têm suscitado reações que falam de inaceitável autoritarismo. Creio que a posição equilibrada a respeito envolve, por sua vez, a consideração de duas faces.
Por um lado, é patente a importância de que se garanta o livre fluxo de comunicações e informações na sociedade, como parte do desiderato democrático de que os direitos civis sejam garantidos. Inequivocamente, nos regimes totalitários ou ditatoriais em geral, o empenho de controlar aquele fluxo se liga ao interesse em impedir que a maneira pela qual a população tende a avaliar o regime se torne transparente aos olhos de todos, eventualmente ajudando a que se difundam e fortaleçam a avaliação negativa e o ânimo de oposição a ele. Tratar-se-ia de criar o que a literatura de psicologia social há muito designa como "ignorância pluralística", em que cada qual desconhece as disposições dos demais e os eventuais opositores são inibidos pela presunção de que se acham em minoria. Costumo evocar a propósito o slogan usado pelo MDB em eleições patrocinadas pela ditadura militar de 1964: "Vote no MDB, você sabe por quê." O "saber" a que o slogan se refere desdobra-se claramente na ideia de que as razões para ser contra o regime eram evidentes, e sugeria que "todo mundo" sabia disso e a oposição a ele seria, portanto, majoritária. Na mesma linha, como sugere o cientista político Timur Kuran ("Verdades Privadas, Mentiras Públicas", de 1995), a derrocada espetacular do comunismo no leste europeu teria tido como importante fator precipitante a súbita difusão da percepção de que o Estado aparentemente todo poderoso que se havia erigido era, na verdade, hostilizado pela ampla maioria das populações envolvidas.
Mas a outra face adverte para o perigo de que o valor da liberdade de imprensa como parte do desiderato de comunicação livre degenere, às vezes, em ideologia arrogante de uma categoria profissional. Pois a imprensa pode também surgir como ameaça aos direitos civis, em vez de instrumento de sua promoção e realização. Entre nós, exemplos algo mais remotos, como o do caso muito citado da Escola Base em São Paulo ou o de Alceni Guerra, ou mais recentes, como os lamentáveis acontecimentos em torno do julgamento dos acusados de assassinar Isabella Nardoni, evidenciam o papel negativo que a imprensa pode cumprir ao competir para oferecer ágil e profusamente o que interessa ao público. E, na precariedade e lentidão do remédio representado pela possibilidade formal do acesso à Justiça por parte das vítimas em certos casos, não há razão para supor que formas de vigilância exercidas por órgãos democraticamente compostos (e que não teriam por que redundar em censura prévia) viessem a equivaler, sem mais, a autoritarismo estatal. Afinal, aceita-se que até a Justiça deve ser submetida a controle externo.
A segunda grande dimensão do tema geral é trazida pela ideia de "representatividade" incluída no título de nossa mesa redonda. Um aspecto saliente das dificuldades a respeito surge se consideramos a "opinião pública", cuja santificação tenho criticado. Falar de uma opinião pública a que, por exemplo, os parlamentares deveriam necessariamente ajustar-se em seu comportamento é aderir a postulados "unanimistas" afins, na verdade, ao suposto consenso de apoio a regimes ditatoriais que as barreiras ao livre fluxo de comunicações e a "ignorância pluralística" ajudariam a produzir. Como observa também Timur Kuran, a democracia envolve sobretudo a sensibilidade perante a opinião privada e autêntica dos cidadãos, a ser protegida, entre outras coisas, justamente das pressões da "opinião pública". É nesse sentido, naturalmente, que o voto secreto é uma conquista democrática.
A questão talvez decisiva aqui é a de como ver a atuação da imprensa diante do tema da representatividade de que a "opinião pública" e os postulados unanimistas envolvidos são uma faceta. Se a imprensa frequentemente molda a opinião pública, e se isso pode envolver interesses de tipos diversos (empresariais, políticos), há também ocasionalmente, sem dúvida, a pura e simples adesão pouco atenta, e talvez ingênua, a posições que os órgãos da imprensa percebem como brotando espontaneamente da "opinião pública": como entender, por exemplo, a difusa campanha da imprensa brasileira pelo voto aberto no Congresso, que omite o favorecimento à pressão de currais eleitorais e lobbies e põe de lado ideias como a da representação "virtual", de Edmund Burke, em que as pressões dos interesses particulares de determinadas bases são substituídas, nas decisões do parlamentar, pela consideração do interesse geral?
Mas o assunto é mais complicado. Pois há ainda o problema inverso, de certa forma, envolvendo a questão de uma opinião pública eventualmente minoritária, em que as posições e opiniões que a imprensa veicula e defende em particular no campo político, ajustando-se às da parcela politicamente atenta da população, se contrapõem às das parcelas majoritárias do eleitorado popular. Como a ideia de representação democrática se articulará com a de representatividade estatística que as pesquisas de opinião devem assegurar, trazendo à luz precisamente o contraste entre a opinião da maioria e a presumida opinião pública?
Por Fábio Wanderley Reis - Valor Econômico