sábado, 19 de junho de 2010
Porto Vintage
Este vídeo veio na sequência de um trabalho da disciplina Tecnologia dos Media - Vídeo com o objectivo de mostrar o Porto como um lugar divertido, turístico e atraente. Foi filmado no Porto e apartir de Gaia.
terça-feira, 15 de junho de 2010
"Direito ao «Lugar»"
Este vídeo foi produzido na continuação da Reportagem dos Sem-Abrigo feita a 01 de Junho. Todas as imagens captadas são fiés ao cenário encontrado na Reportagem. Este vídeo não é aconselhado a menores. Um muito OBRIGADA a todos os que tornaram isto possível. Este vídeo foi apresentado ontem no Seminário "Direito ao «Lugar»" realizado em Barcelos, pelo Projecto da APDES.
sábado, 5 de junho de 2010
Sem Abrigo, sem roupa, sem nada...
Por Liliana Laura Xavier Pestana
01.06.2010

Está um dia de verão, trinta graus sem vento e Manuel, com as suas rugas de expressão e de uma vida dura, já está à porta do "Projecto"(nome fictício do local) há espera das doutoras. “Oh senhora doutora há aí sumo? Não? Ah então eu aguento.” pede Manuel, ex sem-abrigo e ex toxicodependente, conseguiu ficar alojado num apartamento com a articulação do projecto cujo nome não pode ser revelado.
A Dra. Mariana pede a Manuel para ver onde vivia antes e onde vive agora “É lá perto do caminho-de-ferro. Eu mostro.” aponta Manuel entusiasmado. Já dentro do carro Manuel dá as direcções, e passando o caminho-de-ferro é visível uma cerca que rodeia um terreno baldio. Ao passar na cerca vandalizada, Manuel olha para trás desconfiada “Antes ninguém me podia ver entrar podiam roubar-me o lugar.” Seguindo o caminho de terra, pelo terreno baldio, surge um pavilhão desportivo e uma casa amarela por trás de um muro alto. “Eu já vivi na casa amarela, mas um homem que me viu lá botou-me para a rua e eu fiquei a viver ao lado”, Manuel sobe um muro com cerca de um metro e amavelmente ajuda as doutoras a subir.

Erva por todo o lado, parecia uma selva com mato até à cabeça e a perder de vista. Com bichinhos, pólen amarelo e silvado a puxar pela roupa e a arranhar a pele, Manuel indica o caminho para a pequena barraca já quase sem telhas. Com a porta entreaberta, presa pelos farrapos e cobertores no chão, é visível uma cama ainda feita, roupa pendurada por um fio de um lado ao outro deste cubículo que não tem mais do que um metro e pouco. “Eu dormia com as formigas e os caracóis, e agora nem televisão tenho!” pedincha Manuel às doutoras, que só quer um pouco de distracção.
“A minha maior felicidade foi a casa que as doutoras me deram! Merecem um abraço todos os dias.” Manuel mostra que lavava a roupa num dos três poços de pedra que se encontram ao lado do casebre. “Pois eu sei que o senhor é muito limpinho e arrumadinho!” evidencia a Dra. Mariana com orgulho no seu utente.
É visível expressão de felicidade e quase de orgulho de Manuel em mostrar onde não dorme mais. “Vamos à sua casa nova?” referiu a Dra. Mariana, ao que Manuel esboçou um grande e luminoso sorriso.
Rumo à casa nova é visível o retorno à civilização, bairro calmo, flores a decorar as entradas, já não é visível o mato e o silvado. Pessoas na rua a caminhar e Manuel apressa-se a abrir a porta do seu edifício para convidar a entrar. Manuel mostra o elevador que não funciona ao que a Dra. Mariana diz “O senhor Manuel carrega aqui e ele vem, até já está aqui olhe, é só abrir a porta!” O ex sem-abrigo espantado e iluminado retorquia “Ah, então é assim! Eu achei que estava avariado!” Já dentro do elevador a Dra. Mariana reflectia “Quem é que acredita que estivemos no mato onde vivia e agora estamos num elevador a caminho da sua casa?”

Neste edifício com já alguns anos, nervoso por aprovação, Manuel não consegue abrir a porta “Ainda não dei com o jeito destas chaves modernas”. Já no interior nota-se a calma, o silêncio, paredes despidas, não há mobília, nem uma cadeira para se sentar. No quarto de dormir, a cama feita com chinelos ao pé e no chão folhas de revistas colocadas direitinhas lado a lado impedem que a pouca roupa de Manuel toque no chão. À janela uma taça redonda de plástico com cigarros feitos à mão todos direitinhos e um cinzeiro improvisado. Uma das gavetas da cozinha tem um garfo, uma faca, uma colher de sopa e uma de sobremesa. O cheiro a limpo sentia-se no ar, Manuel é um homem asseado e organizado. “Com tanto espaço livre o que é que eu vou fazer? Ora vou improvisar!” Agora Manuel só pensa em arrumar carros para conseguir pagar a água, a luz e o gás no fim do mês, “e vou juntar dinheiro para passar tudo para meu nome!”
Regresso ao "Projecto" e lá se encontra Flávio, um rapaz novo, sem abrigo e toxicodependente que conseguiu sair das ruas graças a um amigo de infância que intercedeu por ele acolhendo-o. Bem vestido, com roupa limpa, Flávio não parece estar com boa cara. Pálido, sem olhar nos olhos, nervoso a olhar para todo o lado, mas sem ver nada, a Dra. Mariana pergunta “Estás bem? Consumiste?” ao que Flávio retorquia “Tou a ressacar mas tou bem!”. Flávio dormia numa velha casa abandonada com o irmão de Manuel. “Arranjamos um colchão e um sofá velho, eu dormia no sofá e o irmão do Manuel dormia no colchão. Às vezes vinham aí amigos meus e eu os deixava ficar, o Irmão do Manuel também não dizia nada. Agora não sei o sítio do irmão do Manuel. Eu só vinha dormir e arrancava. Eu ia lá abaixo comprar, o traficante só podia às 10 horas, consumia e bazava.”

Flávio olha a casa que outrora fora sua, carbonizada e destruída, sem muito para ver. “Havia gente que vinha consumir para aqui.” aponta Flávio para uma divisão da casa cheia de lixo que não ficou queimada pelo fogo. Flávio afasta-se olhando para o chão, recordando os momentos passados naquela que outrora chamara de casa.
Seguindo em direcção à câmara, e estacionada a carrinha, Henrique, toxicodependente e sem-abrigo chega-se para falar com as doutoras receoso. Com as unhas curtas e castanhas de terra, com a cara suja, este rapaz novo já tem sangue nas pequenas mãos. Matou um homem com uma faca no coração, por razões desconhecidas. A mãe que morreu faz algum tempo e foi a razão pela qual agora arruma carros a troco de dinheiro para a próxima dose. Henrique dorme ao ar livre numas escadas com uma prostituta, a Joana também toxicodependente. “Ela arranja dinheiro lá com as formas dela. Ela acorda-me de noite a tossir. Aquele catarro castanho, epa ela tem (tuberculose). Aquilo parece gelatina castanha que se cola à parede, que nojo! Até me viro para o lado para ela tossir nas minhas costas, viro-lhe o cu.” Dormir nas escadas ao relento é normal para Henrique, “Chego ali deito-me e acordo de manhã, mais nada. Um dia acordei sobressaltado, uma cobra! E estava a puta a andar na estrada! Aquilo está cheio de bichos, às vezes acordo com bichos a ferrarem-me na cara, não é bom.” diz Henrique impaciente por voltar ao “trabalho”. Iniciou-se na metadona para deixar a droga “Só fumo (droga) quando me fodem a cabeça!” replica Henrique quase que irritado, afasta-se e corre para arrumar um carro que chega “Amigo, aqui amigo”.
Com a autorização de Henrique as doutoras foram visitar o local. Com o sol lá no alto, a transpirar e de camisolas molhadas coladas às costas, encontram finalmente as escadas onde dorme Henrique e Joana. Casas com piscina, formas arquitectónicas futuristas, jardins bem cuidados. Um colchão e alguns cobertores são o que compõem a cama deste casal. Formigas passeiam entre os cobertores e moscas pousam naquela dormida improvisada.

Ao fundo das escadas um monte de lixo cobre o chão, pratas de consumo, comida podre e mocas a sobrevoar o forte cheiro de decomposição da lixeira. A parede suja de mãos e de dedos como se uma briga tivesse acontecido ali, na casa adaptada a dois tóxicos. “Às vezes eles trazem amigos para se drogarem todos juntos, ao fim-de-semana, mas se fazem muito barulho e digo logo para irem embora porque eu tenho que trabalhar! Já mandei fazer umas grades para tapar essa merda para eles não entrarem.” diz o dono, de cabelo grisalho, surgindo na janela do prédio ao qual as escadas pertencem. “Eu só não lhe rebento a cara por respeito à rapariga, coitada não tem culpa. Mas ele é um ladrão, rebentou-me uma casa que eu tinha toda pintada e arranjada. Eles às vezes discutem, chamam um ao outro drogado e eu venho cá fora e tento acalmá-los.” diz descontente, evidenciando as brigas constantes de casal.

“Não sei como é que eles conseguem viver com este pivete! São animais! Isto é um nojo!” diz o dono do prédio quanto ao cheiro que se faz sentir. O cheiro é tão forte que pica nos olhos e fere as narinas. As doutoras pedem paciência ao dono do prédio, logo que possível vão tirá-los daí. Mas não é tarefa fácil, o projecto tem várias etapas das quais o utente tem que se qualificar. Henrique ainda não é qualificável para receber casa, pois ainda é toxicodependente.
Em direcção a outra casa um pouco mais longe do centro, num terreno baldio, coberto de terra avista-se uma casa ao fundo de janelas partidas. A medo, a Dra. Mariana bateu palmas como sinal de aviso de chegada “Está alguém aí?” gritou.
Sem resposta avançam em direcção a uma casa abandonada, com os vidros partidos, uma porta entreaberta convida-nos a entrar para a imensidão de lixo no chão daquela que parecia ser a garagem.

Um peluche no meio de tanto lixo sobressai ao cheiro putrefacto emanado daquele local.
Subimos para o primeiro andar onde a Dra. Mariana voltou a perguntar “Oh da casa, está alguém?” Sem objecções avançamos para o interior da casa a muito receio do que poderia ser encontrado. Lixo, lixo por todo o lado, mal conseguem andar nas divisões cheias de material utilizado para a droga. Uma das divisões tinha a porta fechada. A Dra. Mariana aproximou-se e bateu à porta, ninguém responde, então tenta a sua sorte. Consegue abrir, mas sai correndo “Ah meu Deus que cheiro!” e corre para a rua de mão no nariz.

Por trás daquela porta, que quase nem dava para abrir estava uma cama com montes de coisas em cima, duas velas no chão, uma acesa provavelmente por causa do cheiro. Lixo em cima da cama e espalhado pelo chão, lâminas na mesa-de-cabeceira e uma banheira com água castanha quase preta, se calhar usada para se lavarem. Mas o cheiro era intragável, o pior de todos os cheiros sentidos hoje!

Parecia que algum animal aí tinha morrido. É um cheiro que provoca vómitos instantâneos, tal era a poluição. Existem mesmo pessoas que vivem ali. Com aquele cheiro, com aquele lixo e a mesma água.
01.06.2010
Está um dia de verão, trinta graus sem vento e Manuel, com as suas rugas de expressão e de uma vida dura, já está à porta do "Projecto"(nome fictício do local) há espera das doutoras. “Oh senhora doutora há aí sumo? Não? Ah então eu aguento.” pede Manuel, ex sem-abrigo e ex toxicodependente, conseguiu ficar alojado num apartamento com a articulação do projecto cujo nome não pode ser revelado.
A Dra. Mariana pede a Manuel para ver onde vivia antes e onde vive agora “É lá perto do caminho-de-ferro. Eu mostro.” aponta Manuel entusiasmado. Já dentro do carro Manuel dá as direcções, e passando o caminho-de-ferro é visível uma cerca que rodeia um terreno baldio. Ao passar na cerca vandalizada, Manuel olha para trás desconfiada “Antes ninguém me podia ver entrar podiam roubar-me o lugar.” Seguindo o caminho de terra, pelo terreno baldio, surge um pavilhão desportivo e uma casa amarela por trás de um muro alto. “Eu já vivi na casa amarela, mas um homem que me viu lá botou-me para a rua e eu fiquei a viver ao lado”, Manuel sobe um muro com cerca de um metro e amavelmente ajuda as doutoras a subir.
Erva por todo o lado, parecia uma selva com mato até à cabeça e a perder de vista. Com bichinhos, pólen amarelo e silvado a puxar pela roupa e a arranhar a pele, Manuel indica o caminho para a pequena barraca já quase sem telhas. Com a porta entreaberta, presa pelos farrapos e cobertores no chão, é visível uma cama ainda feita, roupa pendurada por um fio de um lado ao outro deste cubículo que não tem mais do que um metro e pouco. “Eu dormia com as formigas e os caracóis, e agora nem televisão tenho!” pedincha Manuel às doutoras, que só quer um pouco de distracção.
“A minha maior felicidade foi a casa que as doutoras me deram! Merecem um abraço todos os dias.” Manuel mostra que lavava a roupa num dos três poços de pedra que se encontram ao lado do casebre. “Pois eu sei que o senhor é muito limpinho e arrumadinho!” evidencia a Dra. Mariana com orgulho no seu utente.
É visível expressão de felicidade e quase de orgulho de Manuel em mostrar onde não dorme mais. “Vamos à sua casa nova?” referiu a Dra. Mariana, ao que Manuel esboçou um grande e luminoso sorriso.
Rumo à casa nova é visível o retorno à civilização, bairro calmo, flores a decorar as entradas, já não é visível o mato e o silvado. Pessoas na rua a caminhar e Manuel apressa-se a abrir a porta do seu edifício para convidar a entrar. Manuel mostra o elevador que não funciona ao que a Dra. Mariana diz “O senhor Manuel carrega aqui e ele vem, até já está aqui olhe, é só abrir a porta!” O ex sem-abrigo espantado e iluminado retorquia “Ah, então é assim! Eu achei que estava avariado!” Já dentro do elevador a Dra. Mariana reflectia “Quem é que acredita que estivemos no mato onde vivia e agora estamos num elevador a caminho da sua casa?”
Neste edifício com já alguns anos, nervoso por aprovação, Manuel não consegue abrir a porta “Ainda não dei com o jeito destas chaves modernas”. Já no interior nota-se a calma, o silêncio, paredes despidas, não há mobília, nem uma cadeira para se sentar. No quarto de dormir, a cama feita com chinelos ao pé e no chão folhas de revistas colocadas direitinhas lado a lado impedem que a pouca roupa de Manuel toque no chão. À janela uma taça redonda de plástico com cigarros feitos à mão todos direitinhos e um cinzeiro improvisado. Uma das gavetas da cozinha tem um garfo, uma faca, uma colher de sopa e uma de sobremesa. O cheiro a limpo sentia-se no ar, Manuel é um homem asseado e organizado. “Com tanto espaço livre o que é que eu vou fazer? Ora vou improvisar!” Agora Manuel só pensa em arrumar carros para conseguir pagar a água, a luz e o gás no fim do mês, “e vou juntar dinheiro para passar tudo para meu nome!”
Regresso ao "Projecto" e lá se encontra Flávio, um rapaz novo, sem abrigo e toxicodependente que conseguiu sair das ruas graças a um amigo de infância que intercedeu por ele acolhendo-o. Bem vestido, com roupa limpa, Flávio não parece estar com boa cara. Pálido, sem olhar nos olhos, nervoso a olhar para todo o lado, mas sem ver nada, a Dra. Mariana pergunta “Estás bem? Consumiste?” ao que Flávio retorquia “Tou a ressacar mas tou bem!”. Flávio dormia numa velha casa abandonada com o irmão de Manuel. “Arranjamos um colchão e um sofá velho, eu dormia no sofá e o irmão do Manuel dormia no colchão. Às vezes vinham aí amigos meus e eu os deixava ficar, o Irmão do Manuel também não dizia nada. Agora não sei o sítio do irmão do Manuel. Eu só vinha dormir e arrancava. Eu ia lá abaixo comprar, o traficante só podia às 10 horas, consumia e bazava.”
Flávio olha a casa que outrora fora sua, carbonizada e destruída, sem muito para ver. “Havia gente que vinha consumir para aqui.” aponta Flávio para uma divisão da casa cheia de lixo que não ficou queimada pelo fogo. Flávio afasta-se olhando para o chão, recordando os momentos passados naquela que outrora chamara de casa.
Seguindo em direcção à câmara, e estacionada a carrinha, Henrique, toxicodependente e sem-abrigo chega-se para falar com as doutoras receoso. Com as unhas curtas e castanhas de terra, com a cara suja, este rapaz novo já tem sangue nas pequenas mãos. Matou um homem com uma faca no coração, por razões desconhecidas. A mãe que morreu faz algum tempo e foi a razão pela qual agora arruma carros a troco de dinheiro para a próxima dose. Henrique dorme ao ar livre numas escadas com uma prostituta, a Joana também toxicodependente. “Ela arranja dinheiro lá com as formas dela. Ela acorda-me de noite a tossir. Aquele catarro castanho, epa ela tem (tuberculose). Aquilo parece gelatina castanha que se cola à parede, que nojo! Até me viro para o lado para ela tossir nas minhas costas, viro-lhe o cu.” Dormir nas escadas ao relento é normal para Henrique, “Chego ali deito-me e acordo de manhã, mais nada. Um dia acordei sobressaltado, uma cobra! E estava a puta a andar na estrada! Aquilo está cheio de bichos, às vezes acordo com bichos a ferrarem-me na cara, não é bom.” diz Henrique impaciente por voltar ao “trabalho”. Iniciou-se na metadona para deixar a droga “Só fumo (droga) quando me fodem a cabeça!” replica Henrique quase que irritado, afasta-se e corre para arrumar um carro que chega “Amigo, aqui amigo”.
Com a autorização de Henrique as doutoras foram visitar o local. Com o sol lá no alto, a transpirar e de camisolas molhadas coladas às costas, encontram finalmente as escadas onde dorme Henrique e Joana. Casas com piscina, formas arquitectónicas futuristas, jardins bem cuidados. Um colchão e alguns cobertores são o que compõem a cama deste casal. Formigas passeiam entre os cobertores e moscas pousam naquela dormida improvisada.
Ao fundo das escadas um monte de lixo cobre o chão, pratas de consumo, comida podre e mocas a sobrevoar o forte cheiro de decomposição da lixeira. A parede suja de mãos e de dedos como se uma briga tivesse acontecido ali, na casa adaptada a dois tóxicos. “Às vezes eles trazem amigos para se drogarem todos juntos, ao fim-de-semana, mas se fazem muito barulho e digo logo para irem embora porque eu tenho que trabalhar! Já mandei fazer umas grades para tapar essa merda para eles não entrarem.” diz o dono, de cabelo grisalho, surgindo na janela do prédio ao qual as escadas pertencem. “Eu só não lhe rebento a cara por respeito à rapariga, coitada não tem culpa. Mas ele é um ladrão, rebentou-me uma casa que eu tinha toda pintada e arranjada. Eles às vezes discutem, chamam um ao outro drogado e eu venho cá fora e tento acalmá-los.” diz descontente, evidenciando as brigas constantes de casal.
“Não sei como é que eles conseguem viver com este pivete! São animais! Isto é um nojo!” diz o dono do prédio quanto ao cheiro que se faz sentir. O cheiro é tão forte que pica nos olhos e fere as narinas. As doutoras pedem paciência ao dono do prédio, logo que possível vão tirá-los daí. Mas não é tarefa fácil, o projecto tem várias etapas das quais o utente tem que se qualificar. Henrique ainda não é qualificável para receber casa, pois ainda é toxicodependente.
Em direcção a outra casa um pouco mais longe do centro, num terreno baldio, coberto de terra avista-se uma casa ao fundo de janelas partidas. A medo, a Dra. Mariana bateu palmas como sinal de aviso de chegada “Está alguém aí?” gritou.
Sem resposta avançam em direcção a uma casa abandonada, com os vidros partidos, uma porta entreaberta convida-nos a entrar para a imensidão de lixo no chão daquela que parecia ser a garagem.
Um peluche no meio de tanto lixo sobressai ao cheiro putrefacto emanado daquele local.
Subimos para o primeiro andar onde a Dra. Mariana voltou a perguntar “Oh da casa, está alguém?” Sem objecções avançamos para o interior da casa a muito receio do que poderia ser encontrado. Lixo, lixo por todo o lado, mal conseguem andar nas divisões cheias de material utilizado para a droga. Uma das divisões tinha a porta fechada. A Dra. Mariana aproximou-se e bateu à porta, ninguém responde, então tenta a sua sorte. Consegue abrir, mas sai correndo “Ah meu Deus que cheiro!” e corre para a rua de mão no nariz.
Por trás daquela porta, que quase nem dava para abrir estava uma cama com montes de coisas em cima, duas velas no chão, uma acesa provavelmente por causa do cheiro. Lixo em cima da cama e espalhado pelo chão, lâminas na mesa-de-cabeceira e uma banheira com água castanha quase preta, se calhar usada para se lavarem. Mas o cheiro era intragável, o pior de todos os cheiros sentidos hoje!
Parecia que algum animal aí tinha morrido. É um cheiro que provoca vómitos instantâneos, tal era a poluição. Existem mesmo pessoas que vivem ali. Com aquele cheiro, com aquele lixo e a mesma água.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Trabalho de Infografia
Infografia
O que é a infografia? Informação + Gráfica
Informador tem a estrutura e o Receptor a compreenção, memorização. A mensagem passada do informador para o receptor.
Como:
1- Encontrar informação através da pesquisa
2- Avaliá-la e analisá-la com um planeamento
3- Comunicá-la atravez do desenho de elementos
4 Conseguir adequá-la ao tema, integração dos contrúdos e sua publicação
Decisões a tomar:
- História Linear, com início e fim, pode parar, assinalar, repetir e mudar a forma de ver
- Não Linear, módulos de navegão livre e apresentação de vários níveis de planeamento
-Interacção:
- Instrução Simples
- Manipulação - mudar características físicas dos objectos
- Exploração - Liberdade total
Graus:
1- Mínimo - avançar e recuar horizontal
2- Base - Rollover e um nível vertical
3- Médio - mista de tendências horizontal, mas com nível de profundidade
4- Avançada - tendência vertical com 2/3 de profundidade, objectivos manipuláveis navegação livre.
Fase de Planeamento
1- Compilar os elementos informativos disponíveis
Importante: A infografia jornalística é jornalismo; utiliza uma linguagem jornalística, a imagem é absolutamente necessária para compor a notícia.
* Imagem + texto
Estrutura
+ Título - expressa o conteúdo, mais o lead, mais a imagem inicial e immagens compostas
+ Texto - explicativo, mas não redundante mais legendas
+ Corpo - cuidadosamente composto, sem excesso de elementos visuais ou textuais
+ Fonte - oficial, com pesquisa cuidada
- Infografia
- Narrativa: explica algo, narra algo
- Instrutiva: explicam algo, ex: Ovo Kinder
- Exploratória: oportunidade de explorar
- Simulatórias: experiência do mundo real
Exemplos de Infografias:








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A Infografia realizada no âmbito da Disciplina Design de Comunicação Visual teve como base o Antigo Egipto, nomeadamente o Processo de mumificação. Para completar o presente trabalho foi acrescentado um pouco de história sobre o Processo.
Infografia

Mumificação
A mumificação é a preservação do corpo para o pós-morte. Os antigos egípcios acreditavam na via após a morte e na ideia da necessidade dos mesmos bens materiais após a morte. O processo para a mumificação durava 70 dias.
Método: Primeiro os sacerdotes purificavam o corpo do morto, ao qual referiam como Osíris, com água do Nilo, enquanto um dos sacerdotes usava a máscara de Anúbis e citava o processo de mumificação do "Livro dos Mortos" (que na verdade significa saída para a luz, renascimento). Em seguida Osíris era coberto de natrão (cristais de sal) e secava durante 40 dias.
Após este período iniciavam o processo de extracção dos orgãos internos, extraíam o cérebro com um gancho que enfiavam pelo nariz, torciam algumas vezes, retiravam o gancho com o cérebro e deitavam-no no lixo pois acreditavam que não servia para nada. Logo, faziam um corte na virilha esquerda e o embalsamador enfiava a mão e retirava todos os orgãos colocando-os em quatro "vasos canópicos". Muito raramente tiravam o coração pois este seria posteriormente pesado por Anúbis contra o peso de uma pluma para passar para obter a imortalidade, a vida eterna após a morte. Depois enchiam as cavidades com linho e substâncias aromáticas ou pedras pintadas de branco. A incisão era fechada com uma placa de ouro para a não-evasão por espíritos.
Começavam a enfeixar o corpo pelos dedos das mãos ou dos pés, com 2 faixas representando as duas irmãs, Ísis e Néftis a abraçar Osíris. À medida que iam colocando as faixas, colocavam amuletos entre as ligaduras, principalmente escaravelhos. Só após o fim deste processo é que são chamadas múmias. A múmia era colocada num sarcófago de pedra e colocavão uma máscara com as suas feições para impedir que se perdesse a sua identidade. Após a procissão até ao túmulo abriam a boca à múmia para iniciar o percurso pelo mundo além túmulo. Colocavam papiros com inscrições do "Livro dos Mortos" junto ao corpo e na cabeça. No túmulo colocavam tudo o que a múmia usava na vida terrena para poder usar na vida espiritual, até mesmo comida. Por vezes os criados eram enterrados com os amos/donos, ingeriam veneno voluntáriamente.
Os sacerdotes faziam inscrições religiosas e mágicas de auxílio na sua longa viagem, foi através da Mumificação que deu origem à alquimia.
Este trabalho foi provavelmente o mais bem elaborado até agora, devido ao facto das técnicas de utilização do Photoshop e Freehand já estarem interiorizadas. Sendo assim o tema escolhido para a infografia foi o Processo de mumificação, no Egipto. Primeiro foi feita uma pesquisa na internet e na biblioteca de Letras no sentido de encontrar a maneira mais correcta. Com a pesquisa concluída iniciamos a busca por imagens que façam alusão ao tema escolhido. Com as imagens já escolhidas e definidas foi colocado a imagem de um papiro de fundo e foi criado uma espécie de tiras horizontais nas bordas do papiro. As imagens foram cortadas e colocadas sobre o trabalho assim como o texto, em que a fonte da letra era Papiro. Os programas utilizados neste trabalho foram o Photoshop e o Freehand. Esta infografia com intuito jornalístico possui título, lead, texto principal e curiosidade de modo a ser o mais completo possível. A informação foi o mais complicado de encontrar devido às diferentes versões que o mesmo processo possuí. As imagens não foram tratadas pelo seguinte motivo, o objectivo era manter o processo o mais fiel possível ao que acontecia no passado, daí as imagens não terem sido alteradas, só mesmo o tamanho das imagens, mas a cor não. É essencial ter em conta a afinidade que as pessoas possuem por determinados assuntos, e este assunto em particular, se fosse mudado, os visualizadores deixariam de ter a tal afinidade que possuíam. Foi talvez o trabalho elaborado e mesmo assim simples conseguido nesta disciplina.
O que é a infografia? Informação + Gráfica
Informador tem a estrutura e o Receptor a compreenção, memorização. A mensagem passada do informador para o receptor.
Como:
1- Encontrar informação através da pesquisa
2- Avaliá-la e analisá-la com um planeamento
3- Comunicá-la atravez do desenho de elementos
4 Conseguir adequá-la ao tema, integração dos contrúdos e sua publicação
Decisões a tomar:
- História Linear, com início e fim, pode parar, assinalar, repetir e mudar a forma de ver
- Não Linear, módulos de navegão livre e apresentação de vários níveis de planeamento
-Interacção:
- Instrução Simples
- Manipulação - mudar características físicas dos objectos
- Exploração - Liberdade total
Graus:
1- Mínimo - avançar e recuar horizontal
2- Base - Rollover e um nível vertical
3- Médio - mista de tendências horizontal, mas com nível de profundidade
4- Avançada - tendência vertical com 2/3 de profundidade, objectivos manipuláveis navegação livre.
Fase de Planeamento
1- Compilar os elementos informativos disponíveis
Importante: A infografia jornalística é jornalismo; utiliza uma linguagem jornalística, a imagem é absolutamente necessária para compor a notícia.
* Imagem + texto
Estrutura
+ Título - expressa o conteúdo, mais o lead, mais a imagem inicial e immagens compostas
+ Texto - explicativo, mas não redundante mais legendas
+ Corpo - cuidadosamente composto, sem excesso de elementos visuais ou textuais
+ Fonte - oficial, com pesquisa cuidada
- Infografia
- Narrativa: explica algo, narra algo
- Instrutiva: explicam algo, ex: Ovo Kinder
- Exploratória: oportunidade de explorar
- Simulatórias: experiência do mundo real
Exemplos de Infografias:








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A Infografia realizada no âmbito da Disciplina Design de Comunicação Visual teve como base o Antigo Egipto, nomeadamente o Processo de mumificação. Para completar o presente trabalho foi acrescentado um pouco de história sobre o Processo.
Infografia

Mumificação
A mumificação é a preservação do corpo para o pós-morte. Os antigos egípcios acreditavam na via após a morte e na ideia da necessidade dos mesmos bens materiais após a morte. O processo para a mumificação durava 70 dias.
Método: Primeiro os sacerdotes purificavam o corpo do morto, ao qual referiam como Osíris, com água do Nilo, enquanto um dos sacerdotes usava a máscara de Anúbis e citava o processo de mumificação do "Livro dos Mortos" (que na verdade significa saída para a luz, renascimento). Em seguida Osíris era coberto de natrão (cristais de sal) e secava durante 40 dias.
Após este período iniciavam o processo de extracção dos orgãos internos, extraíam o cérebro com um gancho que enfiavam pelo nariz, torciam algumas vezes, retiravam o gancho com o cérebro e deitavam-no no lixo pois acreditavam que não servia para nada. Logo, faziam um corte na virilha esquerda e o embalsamador enfiava a mão e retirava todos os orgãos colocando-os em quatro "vasos canópicos". Muito raramente tiravam o coração pois este seria posteriormente pesado por Anúbis contra o peso de uma pluma para passar para obter a imortalidade, a vida eterna após a morte. Depois enchiam as cavidades com linho e substâncias aromáticas ou pedras pintadas de branco. A incisão era fechada com uma placa de ouro para a não-evasão por espíritos.
Começavam a enfeixar o corpo pelos dedos das mãos ou dos pés, com 2 faixas representando as duas irmãs, Ísis e Néftis a abraçar Osíris. À medida que iam colocando as faixas, colocavam amuletos entre as ligaduras, principalmente escaravelhos. Só após o fim deste processo é que são chamadas múmias. A múmia era colocada num sarcófago de pedra e colocavão uma máscara com as suas feições para impedir que se perdesse a sua identidade. Após a procissão até ao túmulo abriam a boca à múmia para iniciar o percurso pelo mundo além túmulo. Colocavam papiros com inscrições do "Livro dos Mortos" junto ao corpo e na cabeça. No túmulo colocavam tudo o que a múmia usava na vida terrena para poder usar na vida espiritual, até mesmo comida. Por vezes os criados eram enterrados com os amos/donos, ingeriam veneno voluntáriamente.
Os sacerdotes faziam inscrições religiosas e mágicas de auxílio na sua longa viagem, foi através da Mumificação que deu origem à alquimia.
Este trabalho foi provavelmente o mais bem elaborado até agora, devido ao facto das técnicas de utilização do Photoshop e Freehand já estarem interiorizadas. Sendo assim o tema escolhido para a infografia foi o Processo de mumificação, no Egipto. Primeiro foi feita uma pesquisa na internet e na biblioteca de Letras no sentido de encontrar a maneira mais correcta. Com a pesquisa concluída iniciamos a busca por imagens que façam alusão ao tema escolhido. Com as imagens já escolhidas e definidas foi colocado a imagem de um papiro de fundo e foi criado uma espécie de tiras horizontais nas bordas do papiro. As imagens foram cortadas e colocadas sobre o trabalho assim como o texto, em que a fonte da letra era Papiro. Os programas utilizados neste trabalho foram o Photoshop e o Freehand. Esta infografia com intuito jornalístico possui título, lead, texto principal e curiosidade de modo a ser o mais completo possível. A informação foi o mais complicado de encontrar devido às diferentes versões que o mesmo processo possuí. As imagens não foram tratadas pelo seguinte motivo, o objectivo era manter o processo o mais fiel possível ao que acontecia no passado, daí as imagens não terem sido alteradas, só mesmo o tamanho das imagens, mas a cor não. É essencial ter em conta a afinidade que as pessoas possuem por determinados assuntos, e este assunto em particular, se fosse mudado, os visualizadores deixariam de ter a tal afinidade que possuíam. Foi talvez o trabalho elaborado e mesmo assim simples conseguido nesta disciplina.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Conferência Paulo Moura - Reportagem de Acção
Aqui deixo umas das melhores reportagens de Paulo Moura assim como alguns tópicos de Paulo Moura na Conferência do passado dia 25.05.2010 no Pólo Ciências da Comunicação: Jornalismo, Assessoria e Multimédia, Porto.
Os macedónios desconfiam dos albaneses

Tensão na Macedónia
Em Skopje, depois da chuva
Por Paulo Moura
24.03.2001
Está calor, a chuva veio com a noite, e Dejan tenta falar mais alto do que a trovoada. “Neste momento só desejo que isto acabe depressa, que todos os etrangeiros regressem aos seus países, para eu voltar a ter paz.”Dejan Pavlovic refere-se ao Festival Internacional de Cinemade Skopje, que está a decorrer na capital macedónia e de que é o director.
Começou há uma semana, com pelo menos cinco filmes por dia, originários da Europa, EUA, Japão, Irão e de vários países balcânicos vizinhos, e terminará em grande no próximo domingo, com a exibição da obra considerada mais emblemática da cinematografia macedónia, “Depois da Chuva”, de Milo Manuevski.
Os ataques dos guerrilheiros albaneses no Norte da Macedónia, que se teme serem o rastilho de uma nova guerra nos Balcãs, começaram durante os primeiros dias do festival.
Dejan pensou que seria o fim do certame. Quem teria disposição para ir ao cinema com a guerra já a 15 quilómetros de casa? Com os albaneses do UÇK-M (Exército de Libertação Nacional) a anunciar a ocupação de parcelas de território macedónio, com o Governo a recrutar reservistas para combater, quem sairia de casa para ir ver alambicados filmes croatas ou israelitas?, pensou Dejan. Enganou-se. O festival registou o maior êxito de sempre. A sala de quase 700 lugares do teatro de Skopje esgotou em todas as sessões. “As pessoas vieram para estar umas com as outras, para se sentirem seguras.” Todos os dias, entre as “matinées” e as “soirées”, há um debate com realizadores, actores e críticos de cinema, aberto ao público. A sala esteve sempre cheia e os debates decorreram animados sobre variados temas. Cinema e muitas outras coisas que vinham à baila, mas nunca se falou da guerra.
“Notase que as pessoas estão muito nervosas. Levantam a voz, exaltam-se por tudo e por nada, nas discussões. Mas o assunto nunca foram os tiros e as bombas, nem os cabrões dos guerrilheiros, nem o problema com os albaneses”, observa Dejan, com naturalidade.
“Do outro lado do rio é outra cidade”
O grande “hall” do teatro de Skopje está cheio de gente. Jovens, na sua maioria, conversando, fumando, lendo os programas. Haverá aqui albaneses? Pelo menos 30 por cento da população do país é de etnia albanesa. Em Skopje, a percentagem é sensivelmente a mesma. Este é o festival de cinema da cidade... “Talvez haja alguns albaneses”, admite Tatjana, crítica de cinema num jornal de Skopje. “Não os reconhecemos assim pelo aspecto físico. Mas devem ser raros.” Na organização do festival, decerto não há nenhum. Há realizadores de cinema albaneses? “Não”. Críticos? “Não.” Escritores, músicos, pintores? “Que eu conheça, não. Bom, eles terão os seus próprios artistas, que terão o seu próprio público.” Como é possível, numa mesma cidade, tão pequena?
Dejan tem uma namorada, em Skopje, que nunca falou com um albanês. “Mas odeia-os!”, garante ele, para dar uma ideia da impenetrabilidade do fenómeno. “Nós contactamos com eles, nas lojas ou nos serviços onde trabalham, mas é muito raro termos amigos albaneses. Vivemos separados. Do outro lado do rio, é outra cidade.”
À mesa de um café em frente ao teatro, um grupo de macedónios eslavos e alguns amigos estrangeiros tentam explicar-nos o que sentem pelos albaneses. “São diferentes de nós, é tudo. Deixamo-los em paz, queremos que nos deixem a nós”, diz Dejan. “Têm gente no Governo, têm a merda de uma universidade, que querem mais?” Diz um jornalista de Belgrado que se sente em casa em Skopje: “São arrogantes, violentos e sujos, mas acima de tudo são chatos.” Diz um irlandês que veio reencontrar velhos amigos, depois de ter passados seis anos nos Balcãs a realizar um filme chamado “Adeus, até à próxima guerra”: “O problema deles, depois de terem sido ajudados pelo Ocidente, é que pensam ser iluminados.”
“Estamos todos muito ofendidos com o Ocidente, mas este é o grande teste”, explica Dejan. “Queremos ver o que vão fazer. Se vão ajudar um país que está a ser atacado por guerrilheiros extremistas, ou os próprios ex-tremistas. O nosso problema é que criámos uma crise de identidade. Repare: quando eu andava na primária, disseram-me que isto era a Jugoslávia. No secundário, declararam que a Macedónia era dos macedónios. Agora que acabei os estudos, dizem que isto deve ser a União Europeia, ou que esta terra não é nossa. É difícil para nós sabermos o que está certo e o que está errado.”
Lá fora, a tempestade torna-se realmente violenta, fazendo a discussão ainda mais ilógica. As pessoas estremecem a cada trovão, num inconsciente ensaio de emoções. “De certa forma, sempre estivemos à espera da guerra”, reconhece Dejan. “Todos as outras repú-blicas da ex-Jugoslávia tiveram uma guerra. Diziam que a Macedónia era um oásis, mas também sempre disseram que haveria de chegar a nossa vez. No fundo, sabíamos que isto acabaria por acontecer.”
De certa forma, a Macedónia está em guerra desde a dissolução da Jugoslávia. Uma guerra surda, adiada, mas presente. É como se em cada olhar trocado, nas ruas de Skopje, entre um eslavo e um albanês, corresse num segundo o filme dos futuros massacres. Foram dez anos de convívio próximo com o inimigo, à espera do momento da confrontação. Cumprimentando-os, numa atitude de respeito, quase de estima, como quem guarda ciosamente no bolso uma pílula de cianeto.
A guerra estava a toda a volta e o segredo aqui era não falar dela. Quanto mais próxima, mais proibida. Há dois anos, foi no Kosovo, a escassas dezenas de quilómetros. Na fronteira, ouvia-se os tiros, via-se o fogo, as lágrimas dos refugiados. Agora é em Tetovo, em aldeias a 15 qui-lómetros de Skopje. É como uma pestilência que se aproxima, inexoravelmente. Mas os espectadores do festival de cinema continuam a debater todos os assuntos menos a guerra.
“Só quando as bombas começarem a cair nas nossas cabeças assumiremos que começou”, diz Dejan. Até lá esperam. E tal é a hipnose da expectativa, que quase desejam a guerra. Dejan reconhece-o: “Há quem esteja impaciente por que os combates comecem. Já que não há outra solução, mais vale resolver as coisas rapidamente.” Como se fosse necessária a tempestade para o país poder amanhecer sob uma luz diferente. Dejan já só espera que o seu festival possa chegar ao fim, amanhã. Para que a lotação completa da sala do teatro de Skopje possa aplaudir mais uma vez o filme de Milo Manuevski. Como fez unanimemente na estreia, em 1994.
“Depois da Chuva” é uma história de amor. Ele é um monge em voto de silêncio e ela uma adolescente que se refugia na sua cela. Ele não compreende a sua língua, mas vê que ela é perseguida e protege-a. Não podem falar. Ele é macedónio eslavo, ela é albanesa.
Conferência de Paulo Moura 25.05.2010

Na escrita os jornalistas "roubam” recursos ou técnicas aos escritores, à literatura para fazer a reportagem.
Técnicas:
-reproduzir diálogos
-Jogar com o tempo, analepse e prolepse
-usar personagens e caracterizá-las física e psicologicamente
-descrever cenários
-manipular personagens para o suspance, para suscitar o interesse
Como fazer:
1- Ter uma história
2- Ter um agente que age (nem sempre são as personagens principais)
3- Ter uma estrutura
4- Construir o texto de forma a ter suspance, boa estruturação
As pessoas lêem muito pouco, por isso, a reportagem tem de ser interessante e há que fazer uma estrutura revelando pouco a pouco o conteúdo, para despertar a curiosidade no leitor
Desenlace: contar a história como se ela tivesse um final.
História vs Intriga: história é a realidade, a intriga refere-se à realidade seleccionando alguns pormenores.
Desafio: “Encontrar a história quando aparentemente ela não está lá”.
A escrita é a construção de cenas ex: O segredo do Padre António “Eu sinto Cristo no coração” Paulo Moura entretém o leitor para revelar na última linha o segredo do Padre António.
Os macedónios desconfiam dos albaneses

Tensão na Macedónia
Em Skopje, depois da chuva
Por Paulo Moura
24.03.2001
Está calor, a chuva veio com a noite, e Dejan tenta falar mais alto do que a trovoada. “Neste momento só desejo que isto acabe depressa, que todos os etrangeiros regressem aos seus países, para eu voltar a ter paz.”Dejan Pavlovic refere-se ao Festival Internacional de Cinemade Skopje, que está a decorrer na capital macedónia e de que é o director.
Começou há uma semana, com pelo menos cinco filmes por dia, originários da Europa, EUA, Japão, Irão e de vários países balcânicos vizinhos, e terminará em grande no próximo domingo, com a exibição da obra considerada mais emblemática da cinematografia macedónia, “Depois da Chuva”, de Milo Manuevski.
Os ataques dos guerrilheiros albaneses no Norte da Macedónia, que se teme serem o rastilho de uma nova guerra nos Balcãs, começaram durante os primeiros dias do festival.
Dejan pensou que seria o fim do certame. Quem teria disposição para ir ao cinema com a guerra já a 15 quilómetros de casa? Com os albaneses do UÇK-M (Exército de Libertação Nacional) a anunciar a ocupação de parcelas de território macedónio, com o Governo a recrutar reservistas para combater, quem sairia de casa para ir ver alambicados filmes croatas ou israelitas?, pensou Dejan. Enganou-se. O festival registou o maior êxito de sempre. A sala de quase 700 lugares do teatro de Skopje esgotou em todas as sessões. “As pessoas vieram para estar umas com as outras, para se sentirem seguras.” Todos os dias, entre as “matinées” e as “soirées”, há um debate com realizadores, actores e críticos de cinema, aberto ao público. A sala esteve sempre cheia e os debates decorreram animados sobre variados temas. Cinema e muitas outras coisas que vinham à baila, mas nunca se falou da guerra.
“Notase que as pessoas estão muito nervosas. Levantam a voz, exaltam-se por tudo e por nada, nas discussões. Mas o assunto nunca foram os tiros e as bombas, nem os cabrões dos guerrilheiros, nem o problema com os albaneses”, observa Dejan, com naturalidade.
“Do outro lado do rio é outra cidade”
O grande “hall” do teatro de Skopje está cheio de gente. Jovens, na sua maioria, conversando, fumando, lendo os programas. Haverá aqui albaneses? Pelo menos 30 por cento da população do país é de etnia albanesa. Em Skopje, a percentagem é sensivelmente a mesma. Este é o festival de cinema da cidade... “Talvez haja alguns albaneses”, admite Tatjana, crítica de cinema num jornal de Skopje. “Não os reconhecemos assim pelo aspecto físico. Mas devem ser raros.” Na organização do festival, decerto não há nenhum. Há realizadores de cinema albaneses? “Não”. Críticos? “Não.” Escritores, músicos, pintores? “Que eu conheça, não. Bom, eles terão os seus próprios artistas, que terão o seu próprio público.” Como é possível, numa mesma cidade, tão pequena?
Dejan tem uma namorada, em Skopje, que nunca falou com um albanês. “Mas odeia-os!”, garante ele, para dar uma ideia da impenetrabilidade do fenómeno. “Nós contactamos com eles, nas lojas ou nos serviços onde trabalham, mas é muito raro termos amigos albaneses. Vivemos separados. Do outro lado do rio, é outra cidade.”
À mesa de um café em frente ao teatro, um grupo de macedónios eslavos e alguns amigos estrangeiros tentam explicar-nos o que sentem pelos albaneses. “São diferentes de nós, é tudo. Deixamo-los em paz, queremos que nos deixem a nós”, diz Dejan. “Têm gente no Governo, têm a merda de uma universidade, que querem mais?” Diz um jornalista de Belgrado que se sente em casa em Skopje: “São arrogantes, violentos e sujos, mas acima de tudo são chatos.” Diz um irlandês que veio reencontrar velhos amigos, depois de ter passados seis anos nos Balcãs a realizar um filme chamado “Adeus, até à próxima guerra”: “O problema deles, depois de terem sido ajudados pelo Ocidente, é que pensam ser iluminados.”
“Estamos todos muito ofendidos com o Ocidente, mas este é o grande teste”, explica Dejan. “Queremos ver o que vão fazer. Se vão ajudar um país que está a ser atacado por guerrilheiros extremistas, ou os próprios ex-tremistas. O nosso problema é que criámos uma crise de identidade. Repare: quando eu andava na primária, disseram-me que isto era a Jugoslávia. No secundário, declararam que a Macedónia era dos macedónios. Agora que acabei os estudos, dizem que isto deve ser a União Europeia, ou que esta terra não é nossa. É difícil para nós sabermos o que está certo e o que está errado.”
Lá fora, a tempestade torna-se realmente violenta, fazendo a discussão ainda mais ilógica. As pessoas estremecem a cada trovão, num inconsciente ensaio de emoções. “De certa forma, sempre estivemos à espera da guerra”, reconhece Dejan. “Todos as outras repú-blicas da ex-Jugoslávia tiveram uma guerra. Diziam que a Macedónia era um oásis, mas também sempre disseram que haveria de chegar a nossa vez. No fundo, sabíamos que isto acabaria por acontecer.”
De certa forma, a Macedónia está em guerra desde a dissolução da Jugoslávia. Uma guerra surda, adiada, mas presente. É como se em cada olhar trocado, nas ruas de Skopje, entre um eslavo e um albanês, corresse num segundo o filme dos futuros massacres. Foram dez anos de convívio próximo com o inimigo, à espera do momento da confrontação. Cumprimentando-os, numa atitude de respeito, quase de estima, como quem guarda ciosamente no bolso uma pílula de cianeto.
A guerra estava a toda a volta e o segredo aqui era não falar dela. Quanto mais próxima, mais proibida. Há dois anos, foi no Kosovo, a escassas dezenas de quilómetros. Na fronteira, ouvia-se os tiros, via-se o fogo, as lágrimas dos refugiados. Agora é em Tetovo, em aldeias a 15 qui-lómetros de Skopje. É como uma pestilência que se aproxima, inexoravelmente. Mas os espectadores do festival de cinema continuam a debater todos os assuntos menos a guerra.
“Só quando as bombas começarem a cair nas nossas cabeças assumiremos que começou”, diz Dejan. Até lá esperam. E tal é a hipnose da expectativa, que quase desejam a guerra. Dejan reconhece-o: “Há quem esteja impaciente por que os combates comecem. Já que não há outra solução, mais vale resolver as coisas rapidamente.” Como se fosse necessária a tempestade para o país poder amanhecer sob uma luz diferente. Dejan já só espera que o seu festival possa chegar ao fim, amanhã. Para que a lotação completa da sala do teatro de Skopje possa aplaudir mais uma vez o filme de Milo Manuevski. Como fez unanimemente na estreia, em 1994.
“Depois da Chuva” é uma história de amor. Ele é um monge em voto de silêncio e ela uma adolescente que se refugia na sua cela. Ele não compreende a sua língua, mas vê que ela é perseguida e protege-a. Não podem falar. Ele é macedónio eslavo, ela é albanesa.
Conferência de Paulo Moura 25.05.2010

Na escrita os jornalistas "roubam” recursos ou técnicas aos escritores, à literatura para fazer a reportagem.
Técnicas:
-reproduzir diálogos
-Jogar com o tempo, analepse e prolepse
-usar personagens e caracterizá-las física e psicologicamente
-descrever cenários
-manipular personagens para o suspance, para suscitar o interesse
Como fazer:
1- Ter uma história
2- Ter um agente que age (nem sempre são as personagens principais)
3- Ter uma estrutura
4- Construir o texto de forma a ter suspance, boa estruturação
As pessoas lêem muito pouco, por isso, a reportagem tem de ser interessante e há que fazer uma estrutura revelando pouco a pouco o conteúdo, para despertar a curiosidade no leitor
Desenlace: contar a história como se ela tivesse um final.
História vs Intriga: história é a realidade, a intriga refere-se à realidade seleccionando alguns pormenores.
Desafio: “Encontrar a história quando aparentemente ela não está lá”.
A escrita é a construção de cenas ex: O segredo do Padre António “Eu sinto Cristo no coração” Paulo Moura entretém o leitor para revelar na última linha o segredo do Padre António.
terça-feira, 18 de maio de 2010
Palavras de Fábio Wanderley Reis - Valor Econômico
Tive a satisfação de participar, na semana passada, de mesa redonda sobre "Imprensa, Estado e Crise de Representatividade", promovida pelo Centro Brasileiro de Estudos da América Latina do Memorial da América Latina e integrando seminário dedicado a "Liberdade de Imprensa e Democracia na América Latina".
O tema pode ser dividido, a meu ver, em duas dimensões entrelaçadas. A primeira é a questão crucial da liberdade de imprensa como valor, a que remete o título geral do seminário e que tem sido motivo de renovados debates no continente e especificamente no Brasil, onde iniciativas governamentais visando a algum tipo de controle da imprensa têm suscitado reações que falam de inaceitável autoritarismo. Creio que a posição equilibrada a respeito envolve, por sua vez, a consideração de duas faces.
Por um lado, é patente a importância de que se garanta o livre fluxo de comunicações e informações na sociedade, como parte do desiderato democrático de que os direitos civis sejam garantidos. Inequivocamente, nos regimes totalitários ou ditatoriais em geral, o empenho de controlar aquele fluxo se liga ao interesse em impedir que a maneira pela qual a população tende a avaliar o regime se torne transparente aos olhos de todos, eventualmente ajudando a que se difundam e fortaleçam a avaliação negativa e o ânimo de oposição a ele. Tratar-se-ia de criar o que a literatura de psicologia social há muito designa como "ignorância pluralística", em que cada qual desconhece as disposições dos demais e os eventuais opositores são inibidos pela presunção de que se acham em minoria. Costumo evocar a propósito o slogan usado pelo MDB em eleições patrocinadas pela ditadura militar de 1964: "Vote no MDB, você sabe por quê." O "saber" a que o slogan se refere desdobra-se claramente na ideia de que as razões para ser contra o regime eram evidentes, e sugeria que "todo mundo" sabia disso e a oposição a ele seria, portanto, majoritária. Na mesma linha, como sugere o cientista político Timur Kuran ("Verdades Privadas, Mentiras Públicas", de 1995), a derrocada espetacular do comunismo no leste europeu teria tido como importante fator precipitante a súbita difusão da percepção de que o Estado aparentemente todo poderoso que se havia erigido era, na verdade, hostilizado pela ampla maioria das populações envolvidas.
Mas a outra face adverte para o perigo de que o valor da liberdade de imprensa como parte do desiderato de comunicação livre degenere, às vezes, em ideologia arrogante de uma categoria profissional. Pois a imprensa pode também surgir como ameaça aos direitos civis, em vez de instrumento de sua promoção e realização. Entre nós, exemplos algo mais remotos, como o do caso muito citado da Escola Base em São Paulo ou o de Alceni Guerra, ou mais recentes, como os lamentáveis acontecimentos em torno do julgamento dos acusados de assassinar Isabella Nardoni, evidenciam o papel negativo que a imprensa pode cumprir ao competir para oferecer ágil e profusamente o que interessa ao público. E, na precariedade e lentidão do remédio representado pela possibilidade formal do acesso à Justiça por parte das vítimas em certos casos, não há razão para supor que formas de vigilância exercidas por órgãos democraticamente compostos (e que não teriam por que redundar em censura prévia) viessem a equivaler, sem mais, a autoritarismo estatal. Afinal, aceita-se que até a Justiça deve ser submetida a controle externo.
A segunda grande dimensão do tema geral é trazida pela ideia de "representatividade" incluída no título de nossa mesa redonda. Um aspecto saliente das dificuldades a respeito surge se consideramos a "opinião pública", cuja santificação tenho criticado. Falar de uma opinião pública a que, por exemplo, os parlamentares deveriam necessariamente ajustar-se em seu comportamento é aderir a postulados "unanimistas" afins, na verdade, ao suposto consenso de apoio a regimes ditatoriais que as barreiras ao livre fluxo de comunicações e a "ignorância pluralística" ajudariam a produzir. Como observa também Timur Kuran, a democracia envolve sobretudo a sensibilidade perante a opinião privada e autêntica dos cidadãos, a ser protegida, entre outras coisas, justamente das pressões da "opinião pública". É nesse sentido, naturalmente, que o voto secreto é uma conquista democrática.
A questão talvez decisiva aqui é a de como ver a atuação da imprensa diante do tema da representatividade de que a "opinião pública" e os postulados unanimistas envolvidos são uma faceta. Se a imprensa frequentemente molda a opinião pública, e se isso pode envolver interesses de tipos diversos (empresariais, políticos), há também ocasionalmente, sem dúvida, a pura e simples adesão pouco atenta, e talvez ingênua, a posições que os órgãos da imprensa percebem como brotando espontaneamente da "opinião pública": como entender, por exemplo, a difusa campanha da imprensa brasileira pelo voto aberto no Congresso, que omite o favorecimento à pressão de currais eleitorais e lobbies e põe de lado ideias como a da representação "virtual", de Edmund Burke, em que as pressões dos interesses particulares de determinadas bases são substituídas, nas decisões do parlamentar, pela consideração do interesse geral?
Mas o assunto é mais complicado. Pois há ainda o problema inverso, de certa forma, envolvendo a questão de uma opinião pública eventualmente minoritária, em que as posições e opiniões que a imprensa veicula e defende em particular no campo político, ajustando-se às da parcela politicamente atenta da população, se contrapõem às das parcelas majoritárias do eleitorado popular. Como a ideia de representação democrática se articulará com a de representatividade estatística que as pesquisas de opinião devem assegurar, trazendo à luz precisamente o contraste entre a opinião da maioria e a presumida opinião pública?
Por Fábio Wanderley Reis - Valor Econômico
O tema pode ser dividido, a meu ver, em duas dimensões entrelaçadas. A primeira é a questão crucial da liberdade de imprensa como valor, a que remete o título geral do seminário e que tem sido motivo de renovados debates no continente e especificamente no Brasil, onde iniciativas governamentais visando a algum tipo de controle da imprensa têm suscitado reações que falam de inaceitável autoritarismo. Creio que a posição equilibrada a respeito envolve, por sua vez, a consideração de duas faces.
Por um lado, é patente a importância de que se garanta o livre fluxo de comunicações e informações na sociedade, como parte do desiderato democrático de que os direitos civis sejam garantidos. Inequivocamente, nos regimes totalitários ou ditatoriais em geral, o empenho de controlar aquele fluxo se liga ao interesse em impedir que a maneira pela qual a população tende a avaliar o regime se torne transparente aos olhos de todos, eventualmente ajudando a que se difundam e fortaleçam a avaliação negativa e o ânimo de oposição a ele. Tratar-se-ia de criar o que a literatura de psicologia social há muito designa como "ignorância pluralística", em que cada qual desconhece as disposições dos demais e os eventuais opositores são inibidos pela presunção de que se acham em minoria. Costumo evocar a propósito o slogan usado pelo MDB em eleições patrocinadas pela ditadura militar de 1964: "Vote no MDB, você sabe por quê." O "saber" a que o slogan se refere desdobra-se claramente na ideia de que as razões para ser contra o regime eram evidentes, e sugeria que "todo mundo" sabia disso e a oposição a ele seria, portanto, majoritária. Na mesma linha, como sugere o cientista político Timur Kuran ("Verdades Privadas, Mentiras Públicas", de 1995), a derrocada espetacular do comunismo no leste europeu teria tido como importante fator precipitante a súbita difusão da percepção de que o Estado aparentemente todo poderoso que se havia erigido era, na verdade, hostilizado pela ampla maioria das populações envolvidas.
Mas a outra face adverte para o perigo de que o valor da liberdade de imprensa como parte do desiderato de comunicação livre degenere, às vezes, em ideologia arrogante de uma categoria profissional. Pois a imprensa pode também surgir como ameaça aos direitos civis, em vez de instrumento de sua promoção e realização. Entre nós, exemplos algo mais remotos, como o do caso muito citado da Escola Base em São Paulo ou o de Alceni Guerra, ou mais recentes, como os lamentáveis acontecimentos em torno do julgamento dos acusados de assassinar Isabella Nardoni, evidenciam o papel negativo que a imprensa pode cumprir ao competir para oferecer ágil e profusamente o que interessa ao público. E, na precariedade e lentidão do remédio representado pela possibilidade formal do acesso à Justiça por parte das vítimas em certos casos, não há razão para supor que formas de vigilância exercidas por órgãos democraticamente compostos (e que não teriam por que redundar em censura prévia) viessem a equivaler, sem mais, a autoritarismo estatal. Afinal, aceita-se que até a Justiça deve ser submetida a controle externo.
A segunda grande dimensão do tema geral é trazida pela ideia de "representatividade" incluída no título de nossa mesa redonda. Um aspecto saliente das dificuldades a respeito surge se consideramos a "opinião pública", cuja santificação tenho criticado. Falar de uma opinião pública a que, por exemplo, os parlamentares deveriam necessariamente ajustar-se em seu comportamento é aderir a postulados "unanimistas" afins, na verdade, ao suposto consenso de apoio a regimes ditatoriais que as barreiras ao livre fluxo de comunicações e a "ignorância pluralística" ajudariam a produzir. Como observa também Timur Kuran, a democracia envolve sobretudo a sensibilidade perante a opinião privada e autêntica dos cidadãos, a ser protegida, entre outras coisas, justamente das pressões da "opinião pública". É nesse sentido, naturalmente, que o voto secreto é uma conquista democrática.
A questão talvez decisiva aqui é a de como ver a atuação da imprensa diante do tema da representatividade de que a "opinião pública" e os postulados unanimistas envolvidos são uma faceta. Se a imprensa frequentemente molda a opinião pública, e se isso pode envolver interesses de tipos diversos (empresariais, políticos), há também ocasionalmente, sem dúvida, a pura e simples adesão pouco atenta, e talvez ingênua, a posições que os órgãos da imprensa percebem como brotando espontaneamente da "opinião pública": como entender, por exemplo, a difusa campanha da imprensa brasileira pelo voto aberto no Congresso, que omite o favorecimento à pressão de currais eleitorais e lobbies e põe de lado ideias como a da representação "virtual", de Edmund Burke, em que as pressões dos interesses particulares de determinadas bases são substituídas, nas decisões do parlamentar, pela consideração do interesse geral?
Mas o assunto é mais complicado. Pois há ainda o problema inverso, de certa forma, envolvendo a questão de uma opinião pública eventualmente minoritária, em que as posições e opiniões que a imprensa veicula e defende em particular no campo político, ajustando-se às da parcela politicamente atenta da população, se contrapõem às das parcelas majoritárias do eleitorado popular. Como a ideia de representação democrática se articulará com a de representatividade estatística que as pesquisas de opinião devem assegurar, trazendo à luz precisamente o contraste entre a opinião da maioria e a presumida opinião pública?
Por Fábio Wanderley Reis - Valor Econômico
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Trabalho sobre a cor







A cor, após ser captada pela visão, é processada pelo cérebro, quantificada e avaliada convertendo-se num elemento de significado. O cérebro, nesta etapa assimila qual a cor que é vista e relaciona-a com experiências prévias de modo a atribuir valores à cor. Assim sendo, é de considerar que os seres humanos têm uma resposta emocional à cor, baseada no contexto cultural em que se insere. É fundamental estudar e entender quais os valores atribuídos, uma vez que variam de indivíduo para indivíduo. A compreensão e interpretação vai combinar o que é retratado/criado numa composição com as cores utilizadas e a sua relação. Quanto maior o número de cores, maior o número de possibilidades. Esse procedimento passa pelo momento em que a cor é visualizada unicamente como um estímulo, até a fase posterior a sua descodificação, onde sensações, memórias e conceitos imputados, são comparados ao contexto social e cultural. A cor expõe uma carga cultural demasiado forte e a sua interpretação pode ser imposta tanto por costumes locais, globais ou pela própria memória pessoal.
As cores, quando usadas de maneira estratégica em determinadas situações, não só pelo seu valor estético, têm um poder de criar códigos estruturais as quais são muito importantes par ao desenvolvimento de uma interface gráfica. Quando bem utilizadas, facilitam o processo de comunicação, direccionando assim a atenção do leitos para regiões específicas da página. Se pelo oposto misturar-se as cores desenvolvendo um ruído entre si, que complicam a leitura, pelo facto da percepção entre o texto e o fundo ser confundível, por exemplo.
A escolha da palete de cores é fundamental para uma boa harmonia de elementos de um trabalho ou projecto. As cores podem enfatizar os textos, imagens e representar particularmente os elementos da página.
A cor cumpre uma influência deliberativa nos olhos dos seres humanos, afecta a actividade muscular, mental e nervosa. O pacto das cores afecta o psicológico e pode mudar um ponto importante no interesse do público em seu site. Já a combinação certa pode causar variados efeitos, como excitação, urgência, calma, melancolia, segurança, etc., destacando ainda um elemento em relação a outro.
As cores e os efeitos psicológicos
Sensações visuais + significado:
• Branco – pureza
• Preto – negativo
• Cinza – tristeza
• Vermelho – calor, dinamismo
• Rosa – graça, ternura
• Azul – pureza, fé
Sensações Acromáticas
Branco: inocência, paz, divindade, calma, harmonia, para os orientais pode significar morte, batismo, casamento, cisne, lírio, neve, ordem, simplicidade, limpeza, bem, pureza.
Preto: sujeira, sombra, carvão, fumaça, miséria, pessimismo, melancolia, nobreza, seriedade. É expressivo e angustiante ao mesmo tempo. Alegre quando combinado com outras cores.
Cinza: pó, chuva, neblina, tédio, tristeza, velhice, passado, seriedade. Posição intermediária entre luz e sombra.
Sensações Cromáticas
Vermelho: guerra, sol, fogo, atenção, mulher, conquista, coragem, furor, vigor, glória, ira, emoção, paixão, emoção, ação, agressividade, perigo, dinamismo, baixeza, energia, revolta, calor, violência.
Laranja: prazer, êxtase, dureza, euforia, outono, aurora, festa, luminosidade, tentação, senso de humor. Flamejar do fogo.
Amarelo: egoísmo, ciúmes, inveja, prazer, conforto, alerta, esperança, flores grandes, verão, limão, calor da luz solar, iluminação, alerta, euforia.
Verde: umidade, frescor, bosque, mar, verão, adolescência, bem-estar, paz, saúde (medicina), esperança, liberdade, paz repousante. Pode desencadear paixões.
Azul: frio, mar, céu, horizonte, feminilidade, espaço, intelectualidade, paz, serenidade, fidelidade, confiança, harmonia, afeto, amizade, amor, viagem, verdade, advertência.
Roxo: fantasia, mistério, egoísmo, espiritualidade, noite, aurora, sonho, igreja, justiça, misticismo, delicadeza, calma.
Marrom: cordialidade, comportamento nobre, pensar, melancolia, terra, lama, outono, doença, desconforto, pesar, vigor.
Púrpura: violência, furto, miséria, engano, calma, dignidade, estima.
Violeta: calma, dignidade, estima, valor, miséria, roubo, afetividade, miséria, calma, violência, agressão, poder sonífero.
Vermelho-alaranjado: sexualidade, agressão, competição, operacionalidade, desejo, excetabilidade, dominação.
A cor numa imagem é fulcral para se entender o que esta pretende transmitir. Mesmo uma imagem a preto e branco transmite uma mensagem que a imagem a cores não transmite, e vice-versa. É objectivo deste trabalho pesquisar uma imagem e tratá-la a nível de cor, mudando o sentido da imagem ou alterando pontos fulcrais da mesma. Com o intuito de alterar a mensagem transmitida através da imagem adicionei cor onde não existia, retirei onde tinha entre outras transformações. Deste modo as imagens escolhidas foram pesquisadas na Internet e alteradas em photoshop.
As imagens colocadas seram por ordem, ou seja, terá a original primeiro e a imagem alterada logo a seguir. Por acaso as imagens escolhidas na Internet são todas a preto e branco e as alteradas são a cores ou com um pouco de cor.
Neste trabalho fomos de encontro ao propósito de tentar modificar o significado de uma imagem alterando apenas a cor. As imagens foram pesquisadas na internet e nesse sentido procurou-se implementar o que nos foi leccionado assim como as técnicas pesquisadas ou apreendidas em tempo de aula. Com o tempo que nos foi dado, conseguimos apresentar um bom trabalho, assim como uma composição de cor razoável em que tentamos mudar-lhe o sentido acrescentando ou retirando cor, centralizando a atenção do visualizador noutros pormenores que antes não eram denotados. Tendo isto em conta as imagens foram trabalhadas no sentido de criar o impacto desejado utilizando cores que anteriormente a imagem não possuía. As imagens trabalhadas foram principalmente a preto e branco tornando assim o seu dignificado incógnito e deste modo mais fácil a sua transformação para o sentido desejado. Na imagem número um temos uma modelo com uma borboleta pousada no ombro. A imagem em si é muito sombria e escura pelo que optamos por dar mais luminosidade à cara, avermelhamos os lábios de modo a realçar os atributos, colocamo-la loura e realçamos o fundo com a cor verde fazendo realçar também os seus olhos com um verde amarelado. Na imagem de cor número dois, optamos por não realçar o fundo realçando assim as duas figuras centrais da imagem, o pinguim e a menina. Colocamos esta imagem com cores fortes e engraçadas, como por exemplo o pinguim com o pêlo cor-de-rosa, de modo a encontrar a afinidade da imagem fazendo assim sobressair os atributos principais. Na imagem número três houve a tentativa de realçar as rosas mas as folhas não ficaram na sua melhor forma. O fundo foi escurecido quase de modo a ser esquecido, para assim sobressair as duas crianças e as rosas. Foi dado um tom azul às crianças para tomar outra forma.
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