sábado, 5 de junho de 2010

Sem Abrigo, sem roupa, sem nada...

Por Liliana Laura Xavier Pestana
01.06.2010


Está um dia de verão, trinta graus sem vento e Manuel, com as suas rugas de expressão e de uma vida dura, já está à porta do "Projecto"(nome fictício do local) há espera das doutoras. “Oh senhora doutora há aí sumo? Não? Ah então eu aguento.” pede Manuel, ex sem-abrigo e ex toxicodependente, conseguiu ficar alojado num apartamento com a articulação do projecto cujo nome não pode ser revelado.

A Dra. Mariana pede a Manuel para ver onde vivia antes e onde vive agora “É lá perto do caminho-de-ferro. Eu mostro.” aponta Manuel entusiasmado. Já dentro do carro Manuel dá as direcções, e passando o caminho-de-ferro é visível uma cerca que rodeia um terreno baldio. Ao passar na cerca vandalizada, Manuel olha para trás desconfiada “Antes ninguém me podia ver entrar podiam roubar-me o lugar.” Seguindo o caminho de terra, pelo terreno baldio, surge um pavilhão desportivo e uma casa amarela por trás de um muro alto. “Eu já vivi na casa amarela, mas um homem que me viu lá botou-me para a rua e eu fiquei a viver ao lado”, Manuel sobe um muro com cerca de um metro e amavelmente ajuda as doutoras a subir.


Erva por todo o lado, parecia uma selva com mato até à cabeça e a perder de vista. Com bichinhos, pólen amarelo e silvado a puxar pela roupa e a arranhar a pele, Manuel indica o caminho para a pequena barraca já quase sem telhas. Com a porta entreaberta, presa pelos farrapos e cobertores no chão, é visível uma cama ainda feita, roupa pendurada por um fio de um lado ao outro deste cubículo que não tem mais do que um metro e pouco. “Eu dormia com as formigas e os caracóis, e agora nem televisão tenho!” pedincha Manuel às doutoras, que só quer um pouco de distracção.
“A minha maior felicidade foi a casa que as doutoras me deram! Merecem um abraço todos os dias.” Manuel mostra que lavava a roupa num dos três poços de pedra que se encontram ao lado do casebre. “Pois eu sei que o senhor é muito limpinho e arrumadinho!” evidencia a Dra. Mariana com orgulho no seu utente.
É visível expressão de felicidade e quase de orgulho de Manuel em mostrar onde não dorme mais. “Vamos à sua casa nova?” referiu a Dra. Mariana, ao que Manuel esboçou um grande e luminoso sorriso.
Rumo à casa nova é visível o retorno à civilização, bairro calmo, flores a decorar as entradas, já não é visível o mato e o silvado. Pessoas na rua a caminhar e Manuel apressa-se a abrir a porta do seu edifício para convidar a entrar. Manuel mostra o elevador que não funciona ao que a Dra. Mariana diz “O senhor Manuel carrega aqui e ele vem, até já está aqui olhe, é só abrir a porta!” O ex sem-abrigo espantado e iluminado retorquia “Ah, então é assim! Eu achei que estava avariado!” Já dentro do elevador a Dra. Mariana reflectia “Quem é que acredita que estivemos no mato onde vivia e agora estamos num elevador a caminho da sua casa?”


Neste edifício com já alguns anos, nervoso por aprovação, Manuel não consegue abrir a porta “Ainda não dei com o jeito destas chaves modernas”. Já no interior nota-se a calma, o silêncio, paredes despidas, não há mobília, nem uma cadeira para se sentar. No quarto de dormir, a cama feita com chinelos ao pé e no chão folhas de revistas colocadas direitinhas lado a lado impedem que a pouca roupa de Manuel toque no chão. À janela uma taça redonda de plástico com cigarros feitos à mão todos direitinhos e um cinzeiro improvisado. Uma das gavetas da cozinha tem um garfo, uma faca, uma colher de sopa e uma de sobremesa. O cheiro a limpo sentia-se no ar, Manuel é um homem asseado e organizado. “Com tanto espaço livre o que é que eu vou fazer? Ora vou improvisar!” Agora Manuel só pensa em arrumar carros para conseguir pagar a água, a luz e o gás no fim do mês, “e vou juntar dinheiro para passar tudo para meu nome!”

Regresso ao "Projecto" e lá se encontra Flávio, um rapaz novo, sem abrigo e toxicodependente que conseguiu sair das ruas graças a um amigo de infância que intercedeu por ele acolhendo-o. Bem vestido, com roupa limpa, Flávio não parece estar com boa cara. Pálido, sem olhar nos olhos, nervoso a olhar para todo o lado, mas sem ver nada, a Dra. Mariana pergunta “Estás bem? Consumiste?” ao que Flávio retorquia “Tou a ressacar mas tou bem!”. Flávio dormia numa velha casa abandonada com o irmão de Manuel. “Arranjamos um colchão e um sofá velho, eu dormia no sofá e o irmão do Manuel dormia no colchão. Às vezes vinham aí amigos meus e eu os deixava ficar, o Irmão do Manuel também não dizia nada. Agora não sei o sítio do irmão do Manuel. Eu só vinha dormir e arrancava. Eu ia lá abaixo comprar, o traficante só podia às 10 horas, consumia e bazava.”

Flávio olha a casa que outrora fora sua, carbonizada e destruída, sem muito para ver. “Havia gente que vinha consumir para aqui.” aponta Flávio para uma divisão da casa cheia de lixo que não ficou queimada pelo fogo. Flávio afasta-se olhando para o chão, recordando os momentos passados naquela que outrora chamara de casa.

Seguindo em direcção à câmara, e estacionada a carrinha, Henrique, toxicodependente e sem-abrigo chega-se para falar com as doutoras receoso. Com as unhas curtas e castanhas de terra, com a cara suja, este rapaz novo já tem sangue nas pequenas mãos. Matou um homem com uma faca no coração, por razões desconhecidas. A mãe que morreu faz algum tempo e foi a razão pela qual agora arruma carros a troco de dinheiro para a próxima dose. Henrique dorme ao ar livre numas escadas com uma prostituta, a Joana também toxicodependente. “Ela arranja dinheiro lá com as formas dela. Ela acorda-me de noite a tossir. Aquele catarro castanho, epa ela tem (tuberculose). Aquilo parece gelatina castanha que se cola à parede, que nojo! Até me viro para o lado para ela tossir nas minhas costas, viro-lhe o cu.” Dormir nas escadas ao relento é normal para Henrique, “Chego ali deito-me e acordo de manhã, mais nada. Um dia acordei sobressaltado, uma cobra! E estava a puta a andar na estrada! Aquilo está cheio de bichos, às vezes acordo com bichos a ferrarem-me na cara, não é bom.” diz Henrique impaciente por voltar ao “trabalho”. Iniciou-se na metadona para deixar a droga “Só fumo (droga) quando me fodem a cabeça!” replica Henrique quase que irritado, afasta-se e corre para arrumar um carro que chega “Amigo, aqui amigo”.

Com a autorização de Henrique as doutoras foram visitar o local. Com o sol lá no alto, a transpirar e de camisolas molhadas coladas às costas, encontram finalmente as escadas onde dorme Henrique e Joana. Casas com piscina, formas arquitectónicas futuristas, jardins bem cuidados. Um colchão e alguns cobertores são o que compõem a cama deste casal. Formigas passeiam entre os cobertores e moscas pousam naquela dormida improvisada.

Ao fundo das escadas um monte de lixo cobre o chão, pratas de consumo, comida podre e mocas a sobrevoar o forte cheiro de decomposição da lixeira. A parede suja de mãos e de dedos como se uma briga tivesse acontecido ali, na casa adaptada a dois tóxicos. “Às vezes eles trazem amigos para se drogarem todos juntos, ao fim-de-semana, mas se fazem muito barulho e digo logo para irem embora porque eu tenho que trabalhar! Já mandei fazer umas grades para tapar essa merda para eles não entrarem.” diz o dono, de cabelo grisalho, surgindo na janela do prédio ao qual as escadas pertencem. “Eu só não lhe rebento a cara por respeito à rapariga, coitada não tem culpa. Mas ele é um ladrão, rebentou-me uma casa que eu tinha toda pintada e arranjada. Eles às vezes discutem, chamam um ao outro drogado e eu venho cá fora e tento acalmá-los.” diz descontente, evidenciando as brigas constantes de casal.

“Não sei como é que eles conseguem viver com este pivete! São animais! Isto é um nojo!” diz o dono do prédio quanto ao cheiro que se faz sentir. O cheiro é tão forte que pica nos olhos e fere as narinas. As doutoras pedem paciência ao dono do prédio, logo que possível vão tirá-los daí. Mas não é tarefa fácil, o projecto tem várias etapas das quais o utente tem que se qualificar. Henrique ainda não é qualificável para receber casa, pois ainda é toxicodependente.

Em direcção a outra casa um pouco mais longe do centro, num terreno baldio, coberto de terra avista-se uma casa ao fundo de janelas partidas. A medo, a Dra. Mariana bateu palmas como sinal de aviso de chegada “Está alguém aí?” gritou.
Sem resposta avançam em direcção a uma casa abandonada, com os vidros partidos, uma porta entreaberta convida-nos a entrar para a imensidão de lixo no chão daquela que parecia ser a garagem.

Um peluche no meio de tanto lixo sobressai ao cheiro putrefacto emanado daquele local.
Subimos para o primeiro andar onde a Dra. Mariana voltou a perguntar “Oh da casa, está alguém?” Sem objecções avançamos para o interior da casa a muito receio do que poderia ser encontrado. Lixo, lixo por todo o lado, mal conseguem andar nas divisões cheias de material utilizado para a droga. Uma das divisões tinha a porta fechada. A Dra. Mariana aproximou-se e bateu à porta, ninguém responde, então tenta a sua sorte. Consegue abrir, mas sai correndo “Ah meu Deus que cheiro!” e corre para a rua de mão no nariz.


Por trás daquela porta, que quase nem dava para abrir estava uma cama com montes de coisas em cima, duas velas no chão, uma acesa provavelmente por causa do cheiro. Lixo em cima da cama e espalhado pelo chão, lâminas na mesa-de-cabeceira e uma banheira com água castanha quase preta, se calhar usada para se lavarem. Mas o cheiro era intragável, o pior de todos os cheiros sentidos hoje!

Parecia que algum animal aí tinha morrido. É um cheiro que provoca vómitos instantâneos, tal era a poluição. Existem mesmo pessoas que vivem ali. Com aquele cheiro, com aquele lixo e a mesma água.

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